Sobre a criação dos filhos tenros: Teoria do Sundown Roxo
Dos criadores de "Rabugenta, demasiado Rabugenta".

Just a perfect day e eu tava vendo um programa matutino, desses de
savoir vivre, na tv. Daí, os apresentadores estavam ensinando a congelar sanduíches e coisas pra agilizar o preparo da lancheira das crianças pela mãe, que é uma mulher-moderna-e-repleta-de-atividades-com-tripla-jornada, tal. Eis que uma das dicas era fazer um suco concentrado, despejar em forminhas de gelo, congelar. Na manhã de preparar o lanche, a mãe jogava dois cubinhos desse gelo prático, um pouco de água e açúcar e pronto, era só a criança chacoalhar um pouco e o suco tava ok pro lanchinho, great.
E a apresentadora:
- É, as crianças vão se divertir muito fazendo isso!
Hum, e eu pensei, cá com meus botões [vai, rabugenta!]: mas que espécie de diabo de alegria era essa, que a criança poderia vir a usufruir, ao balançar a porra duma garrafa térmica de lancheira pra misturar um reles suco no recreio?? Olha, honestamente, eu jamais conheci pivetes suficientemente patéticos que se divertissem com uma asneira dessas. Gente, concentração. Mas que sandice, que apresentadora sem noção, cara. O povo de tv sempre é meio out of the world, né, uma coisa meio, meio... meio Hebe. Sei lá. Um estilo tipo "
Toda vez que vou a Paris, sempre almoço no bistrô tal e você, telespectador que ganha meio salário mínimo?". Eles sempre dão umas dicas tão práticas para o dia a dia de gente como a gente. "Enrolem os carpaccios, um por um, em filme plástico importado. Retire o ar do pacote com essa bombinha especial também importada e coloque no freezer embutido na sua cozinha tok & stok com detalhes cítricos".
Sim, mas voltemos aos pivetes. Os apresentadores parecem que também não têm noção alguma do que é uma criança. O povo generalizou o lúdico, banalizou total e agora estamos aí, com esse monte de sacanagem que fazem com as crianças e a pior safra de brindes do McDonald's de todos os tempos [olha, há alguns anos eu comprei um McLanche só porque vinha um McAquaplay lindo e massa, ó, vou nem mentir].
- Hum, tesouros sem preço, não me olhem assim.
Hum, falando em brindes, me lembro de uma série de coisas inúteis que os fabricantes querem tornar moda e forçam a barra para que o pivetinho colecione. Coisas que devem ficar logo grudentas, evidentemente, como a garrafinha de um refresquinho que vira cofrinho que eu vi numa propaganda dia desses. ÓBVIO que, mesmo lavando, fica grudento por dentro. Sempre sobra algum resquício suficiente pra atiçar a cobiça das baratas, sempre tão sorrateiras e noturnas [soturnas?].

E lá vai o pirralho colecionando tampas melecadas de danone com hologramas, papel grudento de bala com horóscopo, caixa ex-congelada [e, portanto, molhada] de empanados de frango com um passatempo atrás, saquinho de Ruffles virado do avesso e assim por diante... lixos, lixos. E a criança sempre insiste pra mãe comprar aquele sucrilho horroroso porque vem um super troço inútil de recortar e montar no verso na caixa, o que deve entretê-lo por aproximadamente 15 minutos. E o pirralho come o sucrilho pra fazer jus só na primeira vez, até diz pra mãe otária que achou gostoso - depois abandona a caixa recortada no armário até os sucrilhos amolecerem e irem pro lixo e tal. The same old story.
Já vi um comercial com aquelas tatuagens de chiclete [tem gente que insiste em chamar CHÍCLE, mas enfim, não sei de onde tiram isso] em que o pirralho tatuava na testa. NA TESTA, eu disse. Mas afinal, esse pivete era idiota ou o quê? Na minha infância, tinha um menino na minha sala que adorava tatuagens de chiclete. Ele tatuava tudo o que podia, nos braços e nas pernas. Os amigos davam todas as tatuagens que juntavam pra ele - e o pivete, aos, sei lá, 6 anos, mais parecia o Seu Madruga, sabe. O braço meio encardido de tanta tatuagem, aquela aparência headbanguer. Era um tanto quanto err, pitoresco.

[Hahaha, lembrei daquele episodio de Carrossel no qual o Cirilo ficava se tatuando com tatuagens de DROGAS. Sei lá qual era a droga, só sei que o Jorge Del Salto tinha alguma coisa a ver - ele era sempre tão mau e sórdido. Mas o coitado do Cirilo ficava muito maluuuuco na aula, ó. E violento. Era massa. Sem trocadilhos, mas é o troféu Dark Side of the Force infantil. Pô, e tinha aquele episódio em que ele tentava se pintar de branco pra conquistar a Maria Joaquina... haha, Carrossel rulz]
[...]
O lance é, a meu ver, ocupar a cabeça do pimpolho com todos os tipos de entretenimentos e bugingangas possíveis, pra incentivar não sei o quê. Sei lá, deve ser aquele papo de psicomotricidade ou algum microponto de algum hemisfério cerebral. Mamãe nunca me comprou essas coisas, eu gostava mesmo era de dar banho nas Chuquinhas ou fazer a Barbie flertar com uns caras e sair com eles na Ferrari da Barbie, tocando ABBA, claro. Ah, e eu também tinha uma caixa registradora com dinheiros de mentira e comprinhas que era super legal.

- "Eu gostava mesmo era de dar banho nas Chuquinhas", comove-se a pueril Lucy. [ei, acho que essa Chuquinha da foto é fake. Impostores.]Hum, vai ver que é por isso que eu só adquiri 0.0005 grama de coordenação motora apenas aos 13 anos, quando eu saí do mundo do axé, encontrei jesus e aprendi a tocar violão fluentemente, influenciada por John e Paul e tal. Na verdade, eu queria um baixo, mas papai destruiu meus sonhos. "Você não tem uma banda e o violão é mais barato", he said. I cried. No fun. Aí, aprendi a tocar Wonderwall e, well, vocês já conhecem como termina essa história, dears. Não toco Raul, antes que algum engraçadinho me pergunte. Nem Stairway to Heaven ou Faroeste Caboclo nas rodinhas de amigos adolescentes em fase de auto-afirmação. Porque eu freqüento rodinhas de amigos de respeito e afirmadíssimos, ó, taí.
[...]
Não me conformo. Você vê por aí qualquer mocréia, qualquer capa de playboy por aí, qualquer figurante do Luciano Huck, qualquer mina do elenco-reserva de Malhação falando no TV Fama sobre suas aspirações e desejos de ser modelo, atriz, empresária e ter um... "programa infantil". Céus, que démodé. A Xuxa praticamente acabou e agora só se veste de branco nos programas. Parece a Simone, no Natal. Hum, e acho que a Carla Perez também queria ter um programa infantil. Medo.
Falando em Carla Perez, já estou até vendo as ações da mídia por ocasião da separação dela e Xanddy [alguém duvida que foi alguma numeróloga que mandou duplicar esse "D"?]. Carla, na Ilha de Caras, linda, com os dizeres: "Superei meus problemas: a 'loura', feliz na Ilha, mostra sua nova lipo e fala sobre o fim de seu relacionamento blábláblá". Gugu, sempre esboçando aquela falsa indignação respeitosa, repassando as cenas do casamento de Xanddy e Carla pra despertar as emoções mais recônditas. 35 pontos de audiência. "Carla, suspende o choro aí um momentinho. E agora vamos ver as notícias urgentes com o comandante Hamilton, no Águia Dourada!" "É, Gugu, chove em São Paulo..."
[...]

É o chamado Principio Sundown Roxo ou do Pirulito da Língua Azul... Essa sociedade de consumo vai lançando produtos a esmo, coisas ruins, como a jujuba azul, a maria mole e o torrone, na confiança de que sempre algum pivete vai curtir. Grande erro, ledo engano. As pessoas acham que a pirralhada se "diverte a valer" fazendo altas bobagens. My balls, my eggs. Tipo as esponjas pra banho em formato de smiley, de nuvem, de tarântulas*, ou sei lá mais de quê. Cara, essas coisinhas divertidas são péssimas. Sempre tem aqueles pedagogos baseados em sei lá, textos póstumos de Paulo Freire, dizendo que esses trecos desenvolvem o lóbulo esquerdo do cérebro, área responsável pela fala, motricidade, o ato de plantar bananeira e os sonhos. E tome cientistas checos que se inspiraram no comportamento dos babuínos do Senegal para a pesquisa.
[Nota Mental: eu preciso formar uma banda com esse nome. Babuínos do Senegal.]
*Tarântula é uma palavra legal, né. Repitam. "Tarântula". Cool.
Pois é. Aí, dona de casa, o seu filhão cresce e se torna um adulto obeso, flácido, burro, inseguro e loser, com um adesivo no carro "PILOTADO POR MIM GUIADO POR DEUS" e você não sabe de onde veio essa tragédia humana.
- Pense, prezada mamãe. Reflita sobre quantas vezes ele se pintava de Sundown Roxo na infância e os amiguinhos riam dele na praia, jogavam ele no meio da roda, gritavam "berinjela, berinjela!!" e tacavam areia no seu filho, o pobre e tenro Artur.
search and destroy, iggy pop Hum. Na quinta-feira me pararam e disseram que eu tinha a maior cara de RUIVA.

- And Moscow girls make me sing and shout.
looking for a kiss, new york dolls